A história da menina da Uniban que foi agredida por uma horda de bárbaros me lembrou algumas histórias em minha faculdade, a FEI, também no ABC.
Reduto masculino durante muito tempo (os banheiros femininos, eram, por exemplo, uma recente novidade), vi algumas atrocidades acontecerem por lá. A primeira que veio a mente era de uma loirinha, alias bem da ajeitadinha, mas que insistia em ir com pouquíssima roupa para a faculdade.
Conhecida no meio, era só alvo de olhares e comentários maldosos, até que um dia, no frio congelante de São Bernardo, a dita cuja, me aparece vestida de tenista com uma saia que mal cobria sua bela bundinha.
Pronto, foi o suficiente para a incitar algo parecido com o que aconteceu na Uniban. Mas tudo aconteceu na rua dos bares ao lado da FEI, onde penduradas nas varandas centenas de pessoas gritavam e assobiavam em direção da menina.
Não me lembro de ter havido alguma tentativa de agressão física, mas houve durante alguns minutos o disparo de vários xingamentos.
Eu, para ser exato, nesta hora, estava, estranhamente, na sala de aula, mas lembro de ver a menina já chamando a atenção lá pela 7h da manhã na rua. Lá pelas 11h, a faculdade já estava suficientemente acordada para reagir. Dizia-se que aquela menina tomava pinga de manhã, bebia, fumava, enfim, era uma transgressora e intimidadora por suas atitudes. Talvez fosse isso que mais assustasse a FEI e seus machos.
Os comentários eram que como era possível e porque alguém entraria em um lugar com 9.000 homens vestida daquele jeito e naquele frio. Seja lá o que estivesse passando na sua cabeça, a tal menina nunca mais voltou à FEI, e perdemos a chance de uma vista melhor do que aquele bando de homens.
Lembro-me também de outro evento do “bicho ninja”. Algum estúpido inventou que um dos calouros que não queria levar trote teria dito que era ninja, ou inventaram, pelo fato deles ser japonês. Pronto. Este teve que sair da FEI escoltado e nunca mais voltou. Centenas de imbecis o cercaram querendo o que? Bater? Assustar? Subverter a rígida ordem do quartel da FEI? Sei lá. Mas lembro do um grupinho de 3 ou 4 alunos, riquinhos e cretinos, que não passaram do segundo ano de engenharia na liderança do confronto, apoiados por uma massa que queria gerar uma história para contar depois nos bares.
E por fim, outro caso era de um cara que tinha cabelo comprido, e que não quis que o mesmo fosse cortado. Esse foi perseguido dentro da faculdade e fora dela, e chegou a ser acuado em um bar chegando até a ser agredido fisicamente. Lembro que em determinada hora até o carro dele foi agredido. Lembro perfeitamente do líder daquele grupinho, abrindo a caixa de motor do fusca e dando chutes nas partes internas.
Acho que na FEI, o que existia em comum nestes casos, era o fato de serem pessoas diferentes da média medíocre, a qual me incluía. Pessoas diferentes precisavam se igualar aos outros. Ninguém, com exceção dos expoentes dos iguais, poderiam ser notados.
Pobres de espírito. Hoje me acho um imbecil só te de assistido essas cenas e por algum momento ter achado engraçado, divertido ou coisa parecida. Não me lembro de ninguém que tenha conseguido não ter o cabelo raspado, não ter se submetido a algum tipo de trote ou ter vivido na FEI com um estilo completamente diferente do outros.
Tínhamos que ser iguais, além do fato de termos certeza que aos 18 anos éramos o máximo! Estudávamos numa das faculdades mais difíceis e militarizadas do país, com cursos altamente complexos, longe de casa, como os nossos carros e vivendo a experiência da liberdade de tomar cerveja às 8h da manhã.
Talvez, hoje, isso tenha sido importante para o nosso acrescimento. Ou não. Mas mostra como o diferente e o não alinhado sofre e como um bando de moleques bobos, podem se tornar, de uma hora para outra extremamente agressivos.
À moça da Uniban, a tenista da FEI, ao bicho ninja e ao cabeludo, se servir de consolo, a grande parte das pessoas que incitaram tudo isto, pelo menos na FEI, não completaram nem o ciclo básico. Foram para faculdades de 2º e 3º linhas.
E eu? Eu fiquei mais alguns bons anos lá. Aprendi a conviver com o sistema, burlá-lo quando necessário, amá-lo e odiá-lo. Sobrevivendo, sempre igual aos meus iguais.
